sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Anda, Bobby!

Sabemos todos da irrequietude do atual presidente e de como ele gosta de surpreender toda a gente com visitas ao povo mais simples. Diz-se que um dia destes foi visitar os inquilinos do Hospital Psiquiátrico lá em Lisboa.

Quando lá chegou, o diretor foi avisando o presidente das “manias” de muitos dos doentes para ele saber mais ou menos o que dizer. E chamou a sua especial atenção para um deles que andava a passear uma escova de dentes puxada por uma trela convencido que se tratava do seu cão.

O presidente, com a sua natural habilidade para falar com as pessoas, foi metendo conversa com um ou outro dos doentes até que avistou o que passeava o “cão”.

Chegou-se perto dele e perguntou, cheio de bonomia:

- Então, anda a passear o cãozinho, não é verdade?

O homem fez a sua maior cara de espanto e disse:

- A passear o cão?! Então não se está mesmo a ver que isto é uma escova de dentes?!

O presidente esbugalhou os olhos, mas nada respondeu, limitando-se a ver o homem afastar-se enquanto este, com um certo ar de gozo, sussurrava na direção da escova de dentes:

- Anda, Bobby! Já enganámos mais um!!




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Do insucesso escolar

(Desculpem, mas hoje é a doer! 40 anos de profissão, com experiência em variadíssimos campos, dão-me autoridade para dizer tudo isto e mais ainda.)

Vem esta entrada a propósito doartigo de opinião de Maria de Lurdes Rodrigues no DN de ontem em que a socióloga/professora defende o combate acérrimo ao “chumbo”.




Noutros tempos, o ensino era só para alguns e a tónica era posta num ensino altamente seletivo com reprovações em barda logo na 1ª classe para desmoralizar quanto mais cedo melhor. Essa realidade conheci-a eu desde muito cedo – anos 50 – quando a minha mãe foi dar aulas para Sintra, com 30 ou 40 alunas das várias classes na sala de aula e, apesar de a minha mãe se levantar de madrugada para passar cópias individualizadas para cada menina da 1ª classe, grande parte delas, que chegavam à escola sem saber pegar no lápis e perante as exigências do programa, tinham de repetir duas e três vezes a 1ª classe até, muitas delas, desistirem da escola.

O liceu era para as elites e para lá serem reproduzidas, por isso havia que chumbar como quem separa a flor das ervas daninhas. Os professores tinham dois objetivos: expor a matéria e classificar se ir a exame (ou não). (No meu 6º ano do liceu – que agora se chama 10º - entrámos 48 alunas na turma de Letras (63/64) e apenas onze conseguimos fazer o 7º ano completo.) Aquilo é que era ensino! Ouve-se ainda dizer.

Também eu, formada nos parâmetros dos estágios dos inícios de 70, fui ensinada a classificar e a… chumbar. Até que um dia, já aqui em Leiria, no inovador Ensino Preparatório do ministro Veiga Simão, houve uma inspetora que me mandou chamar por causa do elevado número de negativas que eu dava… Depois veio o ministro de boa memória Roberto Carneiro que instituiu o ensino obrigatório até ao 9º ano, com todos os alunos na escola cada um com as suas especificidades, as aulas de recuperação para os que não atingiam os objetivos mínimos, os currículos adaptados para os alunos com incapacidades de vária ordem e a legislação que nos ensinava a incluir e nunca a excluir. Aprendi/aprendemos a honestidade, e justiça, a transparência no processo de avaliação. Aprendi/aprendemos que avaliar não é classificar. Aprendi/aprendemos que, nos alunos, há que ter em conta não só os seus conhecimentos, mas os seus comportamentos, as suas atitudes, o esforço despendido e sei lá o que mais.

Mas nem todos aprendemos, não! Tantos de nós que continuaram e continuam a defender e a exercer o seu elitismo bacoco, o seu triste poderzinho de «ter a faca e o queijo na mão». E aqui devo apontar o dedo aos professores do «secundário» – raras as notáveis exceções – que continuaram sempre a pensar que avaliar é apenas classificar e que o objetivo número um do ensino é selecionar, separar “o trigo do joio” … [Exemplo disso, triste exemplo disso, foi o anterior ministro da Educação de má memória.]

Muitos professores não listam para os alunos a matéria que vai sair nos testes; muitos professores dão uma matéria e testam outra algo diferente; muitos professores aplicam aos seus alunos testes de colegas que não têm em conta o que foi feito nas suas aulas; muitos professores fazem testes cheios de rasteiras (até os exames nacionais vêm cheios delas…) em que muitas vezes se testa o acessório e se esquece o essencial; muitos professores – ou quase todos – vêem os testes como o único instrumento de avaliação…

E que me dizem de uma professora que está a explorar nas aulas um conto de Herculano e anunciou para esta semana uma mini-ficha sobre Os Maias que ainda nem mencionou nas aulas?


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Mesmo que o frio queime

Poesia num dia de frio




No te rindas, aun estas a tiempo
de alcanzar y comenzar de nuevo,
aceptar tus sombras, enterrar tus miedos,
liberar el lastre, retomar el vuelo.

No te rindas que la vida es eso,
continuar el viaje,
perseguir tus sueños,
destrabar el tiempo,
correr los escombros y destapar el cielo.

No te rindas, por favor no cedas,
aunque el frio queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se esconda y se calle el viento,
aun hay fuego en tu alma,
aun hay vida en tus sueños,
porque la vida es tuya y tuyo tambien el deseo,
porque lo has querido y porque te quiero.

Porque existe el vino y el amor, es cierto,
porque no hay heridas que no cure el tiempo,
abrir las puertas quitar los cerrojos,
abandonar las murallas que te protegieron.

Vivir la vida y aceptar el reto,
recuperar la risa, ensayar el canto,
bajar la guardia y extender las manos,
desplegar las alas e intentar de nuevo,
celebrar la vida y retomar los cielos,

No te rindas por favor no cedas,
aunque el frio queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se ponga y se calle el viento,
aun hay fuego en tu alma,
aun hay vida en tus sueños,
porque cada dia es un comienzo,
porque esta es la hora y el mejor momento,
porque no estas sola,

porque yo te quiero.

(Mario Benedetti)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Companhia para o café...

Um lanchinho a meio da manhã na Praça Rodrigues Lobo é o melhor que me pode acontecer. É o sítio mais bonito de Leiria e traz-me belas recordações de outros tempos. 






E, mesmo com as temperaturas baixas que se estão a fazer sentir, dá vontade de vir cá para fora, para debaixo das arcadas. 

Estou normalmente sozinha porque gosto e porque, de manhã, as esplanadas estão quase vazias. Só que, esta manhã, tive umas companhias muito especiais...













Em cima da minha mesa, com todo o descaramento, todo o à vontade a pedir as migalhinhas do meu croissant... Já viram uma coisa assim?!


domingo, 15 de janeiro de 2017

Je ne veux pas travailler...

No limiar de mais uma semana de trabalho (e com o frio que faz, apesar do solinho amarelo) apetece mesmo é parafrasear os Pink Martini (lembram-se deles?) e gritar: «Je ne veux pas travailler!!!» que é como quem diz «eu não quero trabalhar!»




Boa semana!! 

sábado, 14 de janeiro de 2017

O Museu da Notícia

Em tempo de congresso de jornalistas, parece bem mostrar o Museu da Notícia que nasceu em Sintra no espaço tristemente deixado pelo Museu do Brinquedo - antigo quartel dos Bombeiros da Vila. (ricos bailes se faziam naquele espaço nos idos de 50, 60!...)




O museu, muito alegre, moderno e cheio de luz, estende-se por três andares com várias secções dedicadas a notícias sobre a história portuguesa e mundial.

Na entrada um globo interativo que mostra os ainda poucos locais do mundo que gozam de liberdade de imprensa.




Na vertical e a apanhar os três andares, uma espiral – a lembrar a imagem do ADN – a "Pirâmide de Babel", uma torre metálica com 69 televisões ligadas aos principais canais de notícias de todo o planeta.





Subimos e vamos vendo antepassados da rádio, da televisão, da imprensa.








Interessante a sala dos Imortais.










A sala dedicada aos duelos mais mediáticos.








Uma sala dedicada à propaganda jornalística.








E há o lounge, como lhe chamam, que é uma grande sala de estar com ecrans a toda a volta a passarem acontecimentos mundiais que foram notícia.




Podem "visitar" o museu em http://www.newsmuseum.pt/ mas o melhor mesmo é ir lá. A Sintra, à entrada da Vila. Com tempo, que há muito para ver e experimentar.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De que lado estariam?

Todos nós assistimos já ou estivemos no centro ou de um lado de uma situação parecida com a que o jornalista Paulo Farinha tão bem aqui descreve.

De que lado estariam os meus queridos amigos?



O pai. «Calma. Vou contar até dez. Ele é uma criança, está a testar os meus limites. É isto que as crianças fazem. Testam os limites dos pais. Moem a paciência dos adultos. Isto é fita. Está a sujar o pijama todo no chão mas não vou fazer nada. Acabou de tomar banho e já está todo transpirado de tanto berrar. Vou respirar fundo. Agora não posso voltar atrás. Tenho de manter a postura. Dei uma ordem, disse-lhe para apanhar os brinquedos, agora não posso dar o flanco. Mas por que é que eu me lembrei de fazer isto agora, caraças?! E logo quando os meus pais estão cá em casa. O puto ia para a cama e arrumava eu a porra dos legos e amanhã logo se falava nisso. Deus me perdoe, mas há alturas em que me apetecia mesmo dar-lhe uma bolachada. Ou duas. Se calhar é o que está a merecer. Uma palmada bem assente. Ou uma chapada. Palmadas no rabo, o sacana fica a olhar para mim e a desafiar-me. Parece que está a gozar comigo. Só lhe bati uma vez e fez um berreiro que parecia que vinha a casa abaixo. Vinha a casa e vinha eu, com remorsos. Estou aqui estou a levantar a mão. Já o ameacei três vezes. Ou bato ou fico calado.»

A mãe. «Eu não me vou meter, eu não me vou meter. Não me posso meter. É uma coisa entre pai e filho. Se me meto para dizer ao miúdo para vir para a cama, o pai perde autoridade. Se o deixo estar ali no chão aos gritos a chamar por mim, parte-me o coração. Vou mas é sair. Vou passear o cão e o pai que se desenrasque. Não. Não posso fazer isso. Vou-lhe dizer para fazer o que o pai está a dizer. “Vai já apanhar os brinquedos como o teu pai mandou.” É isso mesmo. Mas não via adiantar. Só vou piorar. Este caminho não está a resultar e o pai está a ficar enervado e o filho está a ficar frustrado. Não percebe por que é que hoje tem de arrumar brinquedos. Está frustrado e está sujo. Irra, ainda há pouco tomou banho e já está todo encharcado em baba e suor. Eu não me vou meter.»

O avô. «O meu filho está a perder mão no puto. Estou aqui estou a levantar-me para dar uma chapada ao catraio. Este miúdo precisa de apanhar para perceber quem é que manda. Eduquei três filhos, todos apanharam quando tiveram de apanhar e não lhes fez mal nenhum. Um bom açoite faz maravilhas. A eles fez. Cresceram todos bem crescidinhos. E agora nenhum encosta o dedo nos filhos. Tenho seis netos e nenhum apanha dos pais. E todos deviam apanhar. Já todos mereceram umas lambadas. Este, está aqui está ali.»

A avó. «Meu rico filho. Apanhou do pai e agora não quer bater no filho. Este miúdo mói a paciência a um santo, um puxão de orelhas não lhe caía nada mal, mas os meus filhos sempre disseram que nunca iam bater nos filhos deles. Eu já lhe tinha chegado a roupa ao pelo. Mas o meu filho é que sabe. Os pais é que sabem.»

O irmão. «Ainda bem que eu já estou na cama. Daqui a pouco tenho de chorar e fingir que acordei com esta gritaria toda. Mas está a ser divertido. O meu irmão é mesmo bom nisso. Leva uma birra até ao limite. Só tem 2 anos mas grita como se tivesse 4. Eu já não faço birras destas, já tenho 5. O meu pai ainda não aprendeu que tem filhos diferentes e deve fazer coisas diferentes. E ter reações diferentes. Mas se eu lhe disser isto ele vai perceber que eu e o meu irmão falamos sobre estas coisas. Mania de os adultos acharem que são mais espertos do que nós e só nos conseguem dobrar à força. Com conversa vamos muito melhor.»

O filho. «Já me dói a garganta de tanto chorar, mas o meu pai não se cala. Se ele vier aqui dar-me um abraço e me pegar ao colo, vou espernear um pouco mas depois acalmo. Já estou farto deste número. Mas a culpa é do meu pai. Ele é que começou. E está ali aos gritos, feito histérico. Quem é que é a criança aqui? Eu ou ele?»


(Paulo Farinha, in Notícias Magazine, 8/jan/2017)