sexta-feira, 21 de julho de 2017

Não se pode morar nos olhos de um gato


Leitura de início de férias. Que, diga-se de passagem, nunca fiz distinção nenhuma entre os livros de leitura de férias dos outros lidos em período de não férias.

Segundo romance da jovem autora Ana Margarida de Carvalho, publicado em 2016, depois de ter recebido o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pelo seu primeiro romance «Que Importa a Fúria do Mar» em 2013.

Eduardo Pitta deixa no ar a questão sobre será este seu segundo romance a marcar o início da distropia na literatura portuguesa. Eu, simples leitora, não vou saber dizer.

Só sei que tão embrenhada andei na leitura deste livro que passou quase uma semana sobre a vinda para estes “mares do sul” e nem tenho ligado o computador… Tem mesmo sido espreguiçalhar na cadeira da piscina, ir ao banho para esticar bem as pernas e os braços e depois naufragar naquela imaginária praia intermitente nas costas do Brasil juntamente com aquele grupo de sobreviventes do barco tumbeiro clandestino: o capataz negreiro e o seu mísero criado, a fidalga brasileira e a sua frágil filha, o padre que teve as suas origens nas fragas na companhia das alcateias transmontanas, o jovem passageiro estudante, o escravo que deu à costa montado num cavalo mutilado e o bebé pretinho salvo do porão do barco negreiro.

Não vou contar mais nada. Se tiver conseguido despertar alguma curiosidade em algum de vós, deixo abaixo alguns links que poderão contar algo mais.

Só vou dizer que se trata de verdadeira literatura. Desde Saramago, Lobo Antunes, Vergílio Ferreira não lia nada tão surpreendente, tão profundamente inquietante, e tão filosoficamente vivido – por esta ordem respetivamente.




E porque o título do romance retoma um verso de O´Neill, aqui fica o respetivo poema.

Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

26 comentários:

  1. The cat looks evil!!!

    Continuação de boas férias.

    : )

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    1. Cats aren't evil... ever....

      Beijinhos e miaus...

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  2. Espicaçaste-me a imaginação!!!
    Bjs e boas férias.

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  3. Motivou-me a buscar a tal leitura!
    Abraço.

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    1. Sei que iria gostar. A ver com a História do Brasil/Portugal, já depois da abolição da escravatura (no papel, claro...)

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  4. Gosto de gatos.
    Fiquei curiosa.
    Continuação de boas férias.

    Beijinhos Graça

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  5. O poema de O´Neill já conhecia. Mas a obra de Ana Margarida de Carvalho, não. E é uma bela sugestão para comprar o seu livro. Continuação de boas férias por esses "Mares do Sul".

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    1. Obrigada, amigo Manuel Tomáz. Boas leituras...

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  6. Um dos maiores romances que li ultimamente! AMC está a valorizar muito bem a herança paterna...

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    1. Sem dúvida! Não está a ficar nada atrás de seu pai, o excelente mestre da escrita Mário de Carvalho.

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  7. Boas leituras e boas férias minha querida.

    Grande beijinho

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  8. ... e mais ainda se é preto...
    Besitos

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  9. Já alguém, aqui da blogo, havia mencionado este livro e esta autora. Apesar da curiosidade que me despertou, na altura, não o cheguei a ler. Talvez o compre, quando os meus olhos pousarem nele num qualquer escaparate de uma das livrarias que visito amiúde, Graça.
    Foi o que aconteceu ontem. Não com este livro da jovem autora, mas com um outro, de um autor veterano que, por sinal, até é o 'Patrão' de uma das sólidas Barcas que navegam neste imenso mar cibernético.

    Este não irá fazer crescer a pilha dos que estão em 'fila de espera' para ser lidos nem, tampouco, dos que estão a ser lidos 'au ralenti', paralelamente com as vindas aos blogs. Este será, até, para levar comigo quando vou descansar para o trabalho...

    Beijocas, Graça. Continuação de excelentes férias e muitas banhocas, de mar ou piscina. :)

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    1. E não é que não entendi a referência ao livro? Enfim... não se pode entender tudo...

      Beijinhos algarvios.

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    2. Então, Gracinha? Não conheces J. Rentes de Carvalho, o 'Patrão da Barca', que é como quem diz do blog "Tempo Contado"?
      Ficas aqui com o link: http://tempocontado.blogspot.pt/

      Beijinhos nortenhos. :)

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  10. Não se pode, diz O'Neil.
    Ainda não topei o livro que a Graça recomenda. Pelas indicações, será daqueles que se lêem uma "folha atrás da outra".
    Boas férias.

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    1. É um espanto! Que mestria de linguagem, de pensamento, de (des)construção diegética...

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  11. Não li mas, depois de ler o seu post, vou colocá-lo entre as prioridades. Continuação de boas férias, Graça.

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    1. Obrigada, Carlos!

      Continuação de bons textos lá pelo face e não só...

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  12. Despertou sim, Graça! Conselhos de leitura são sempre bem-vindas.

    Continuação de boas férias.
    Bjs

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  13. Amo de paixão os felinos.

    Como tu, também não distingo livros de férias e não de férias.

    Que tenhas UM ÓPTIMO REPOUSO!

    Beijinhos e feliz Agosto :)

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